quinta-feira, 6 de março de 2008

VII - Acerca da analogia pseudo-sociológica da "linha de montagem" e da sua contribuição ao entendimento do fenômeno da angústia existencial.

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§ 7





A ideologia hodierna reside em que a produção e o consumo reproduzem e justificam a dominação. Mas o seu caráter ideológico não altera o fato de que seus benefícios são reais. A repressividade do todo reside em alto grau na sua eficácia: amplia as perspectivas da cultura material, facilita a obtenção das necessidades da vida, torna o conforto e o luxo mais baratos, atrai áreas cada vez mais vastas para a órbita da indústria - enquanto, ao mesmo tempo, apóia e encoraja a labuta e a destruição. O indivíduo paga com o sacrifício do seu tempo, de sua consciência, de seus sonhos; a civilização paga com o sacrifício de suas próprias promessas de liberdade, justiça e paz para todos. (Herbert Marcuse. Eros e civilização, capítulo 4)



As diferentes formas de desajustamento social não devem ser vistas como "erros" do sistema, mas sim como "resíduos" do "processo de (re)produção social" (o processo de produzir a vida social, e de reproduzir as suas próprias condições de produção). Esses resíduos - ou "produtos defeituosos" -, por sua vez, surgem naturalmente do desajustamento dos dispositivos de regulação do próprio processo produtivo. Como estes dispositivos, devido à presença de informações incompletas e viscosas, inerentes à realidade material na qual existe uma guerra eterna entre as forças e todas as formas de vida pela disputa do espaço-tempo (e por conseguinte da matéria)-
o bellum omnium contra omnes - , jamais estarão perfeitamente ajustados, um certo grau de desajustamento social é, nesse sentido, "natural", portanto esperado a priori, e de forma alguma "um erro".

Como em todo processo industrial, há um rígido controle de qualidade, que se apresenta na forma de coerções que buscam abafar a atividade dos resíduos e assim minimizar os malefícios decorrentes de sua inevitável presença. Quando e se alguma categoria de resíduo (e uma delas é a do
outsider) sair do controle e ameaçar colocar todo o sistema em crise, a sociedade aciona seus mecanismos de defesa no sentido de regularizar a situação, por meio da eliminação física de parte do próprio organismo.

Como a vida é um desdobramento contínuo e cíclico da atividade, e como o indivíduo está preso ao seu narcisismo, a ele o seu desajustamento é apresentado, por meio de sofismas elaborados por sua racionalidade (
racionalidade essa que não passa de uma ferramenta que se encontra totalmente a serviço da volição individual), como uma qualidade, da qual não deve se envergonhar e a qual deve aceitar e defender, colocando-o, portanto, em desacordo com o sistema, mas em acordo com sigo mesmo.

Devido à coerção decorrente do controle de qualidade, as certezas do indivíduo quanto a correção de sua constituição podem ser colocadas em dúvida, não obstante ele "sinta", pelo já explicado, que ele está certo e que não merece castigo por sua situação,
pela qual, aliás, ele geralmente não é responsável, cabendo-lhe tão somente aceitá-la e afirmar a sua vida dentro das possibilidades que lhe foram fornecidas pelo próprio sistema (isso é, uma facticidade) com o qual agora ele está em conflito justamente em função dessa afirmação que acaba por ser a essência tanto de cada indivíduo, quanto da sociedade, bem como cada uma de suas instituições. Dessa forma, os indivíduos vivem como problemas individuais o que são na verdade problemas sistêmicos; isso por que a ideologia oficial assim trata esses problemas, a fim de eximir o "sistema" das suas responsabilidades - a "responsabilidade" pelos problemas sistêmicos é cobrada de suas vítimas.

Instala-se no indivíduo – reduzido ontologicamente, pelo irracionalismo pós-moderno, a um mero feixe de sensações hedonistas – , portanto, um conflito entre a afirmação, proveniente de seu mecanismo de auto-preservação e de auto-afirmação, e a negação, proveniente dos mecanismos de auto-preservação e de auto-afirmação da sociedade – a qual, aliás, encontra-se constitutivamente transpassada por uma cultura de pulsão de morte – , dessas características anômalas de sua constituição. Características que, se se multiplicarem dentro do sistema, levá-lo-ão ao colapso, dada a sua estruturação e dadas as condições materiais de (re)produção.
O rebelde, portanto, não passa de um desajustado. Aquele que está ajustado não conhece o descontentamento contra o sistema que cria cada indivíduo em si (no seu seio), por si (pelos seus mecanismos) e para si (para transformá-lo em parte do processo (re)produtivo).

O referido conflito no indivíduo causa-lhe frustração e pode, se não administrado corretamente, levá-lo a atitudes desesperadas, geralmente no sentido de reprimir, ou mesmo suprimir, o seu processo de vida. Por mais perspicaz e ardiloso que seja o indivíduo, ele não é forte o bastante para vencer a sociedade.

As engrenagens da sociedade são lubrificadas com sangue, com suor, com lágrimas e com sonhos frustrados.


Para um complemento a esse capítulo, leia: XXXV - Acerca de um pensamento "abominável" que se pode concluir a partir da analogia pseudo-sociológica da "linha de montagem".


O conteúdo desse capítulo VII foi reelaborado e expandido no capítulo CXII.




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Tempore, quo cognitio simul advenit, amor e medio supersurrexit.

5 comentários:

Lucius disse...

Muito foda...Isso faz a gente pensar...Nem precisa de verde pra ficá chapado...

Duan Conrado Castro disse...

"O controle é normalmente administrado por escritórios em que os controladores são os empregadores e empregados. Os patrões já não desempenham uma função individual. Os chefes sádicos, os exploradores capitalistas, foram transformados em membros de uma burocracia, com quem os seus subordinados se encontram, como membros de outra burocracia. O sofrimento, a frustração, a impotência do indivíduo, derivam de um sistema funcionando com alta produtividade e eficiência, no qual ele aufere uma existência em nível melhor do que nunca."

"A maior parte dos clichês com que a Sociologia descreve o processo de desumanização, na cultura de massas da atualidade, é correta; mas parece inclinar-se na direção errada. O que é regressivo não é a mecanização e a padronização,mas a sua contenção; não a coordenação universal,mas o seu encobrimento sob liberdades, opções e individualidades espúrias. O elevado padrão de vida, no domínio das grandes companhias, é restritivo num sentido sociológico concreto: os bens e serviços que os indivíduos compram controlam suas necessidades e petrificam suas faculdades. Em troca dos artigos que enriquecem a vida deles, os indivíduos vendem não só seu trabalho, mas também seu tempo livre. A vida melhor é contrabalançada pelo controle total sobre a vida. As pessoas residem em concentrações habitacionais - e possuem automóveis particulares, com os quais já não podem escapar para um mundo diferente. Têm gigantescas geladeiras repletas de alimentos congelados. Têm dúzias de jornais e revistas que esposam os mesmos ideais. Dispõem de inúmeras opções e inúmeros inventos que são todos da mesma espécie, que as mantêm ocupadas e distraem sua atenção do verdadeiro problema - que é a consciência de que poderiam trabalhar menos e determinar suas próprias necessidades e satisfações.

(Herbert Marcuse. Eros e civilização, capítulo 4)

Duan Conrado Castro disse...

"A individualidade é, literalmente, no nome apenas, na representação específica de tipos (tais como sedutor, dona de casa, Ondina, macho, mulher de carrreira, jovem casal em dificuldades, etc.), assim como a concorrência tende a reduzir-se a variedades previamente combinadas na produção de gadgets, embalagens, sabores, aromas, cores, etc. Sob essa ilusória superfície,todo o mundo de trabalho e sua recreação se tornou um sistema de coisas animadas e inanimadas - todas igualmente sujeitas à administração. A existência humana neste mundo é mero recheio, matéria, material, substância, que não possui em si mesma o princípio de seu movimento. Esse estado de ossificação também afeta os instintos, suas inibições e modificações. Sua dinâmica original torna-se estática; as interações do ego, superego e id congelam-se em reações automáticas. A corporalização do superego é acompanhada da corporalização do ego, manifesta nos traços e gestos petrificados que se produzem nas ocasiões e horas apropriadas. A consciência, cada vez menos sobrecarregada de autonomia, tende a reduzir-se à tarefa de regular a coordenação do indivíduo com o todo.

"Essa coordenação é a tal ponto eficaz que a infelicidade geral decreceu, em vez de aumentar. Sugerimos que a noção consciente da repressão predominante é obnubilada no indivíduo pela restrição manipilada de sua consciência. Esse processo altera o conteúdo da felicidade. O conceito denota uma condição mais-do-que-particular, mais-do-que-subjetiva; a felicidade não está no mero sentimento de satisfação, mas na realidade concreta de liberdade e satisfação. A felicidade envolve conhecimento: é a prerrogativa do animal rationale. Com o declínio da consciência, com o controle da informação, com a absorção do indivíduo na comunicação em massa, o conhecimento é administrado e condicionado. O indivíduo não sabe realmente o que se passa; a máquina esmagadora de educação e entretenimento une-o a todos os outros indivíduos,num estado de anestesia do qual todas as idéias nocivas tendem a ser excluídas. E como o conhecimento da verdade completa dificilmente conduz à felicidade, essa anestesia geral torna os indivíduos felizes. Se a ansiedade é mais do que um mal-estar geral, se é uma condição, um estado existencial, então esta chamada "idade de angústia" distingue-se pelo grau em que a ansiedade desapareceu de qualquer forma de expressão."

(Herbert Marcuse. Eros e civilização, capítulo 4)

tiago disse...

Interessante raciocínio sobre o narcisismo individual, que faz com que o indíviduo sempre considere que suas ações e pensamentos são corretos, mesmo que eles não correspondam as expectativas sociais e culturais da onde vive. Acho que essa é uma das características do livre-arbítrio, havendo a possibilidade de escolha essa escolha vem acompanhada possivelmente de uma defesa e uma motivação que a originou.

Duan Conrado Castro disse...

Tiago,

Esse capítulo ficou meio obscuro, por isso ele foi reescrito e será postado no cap.112.

Com relação ao livre-arbítrio, eu acredito tanto em sua existência quanto na de deus. Ou seja, não acredito em livre-arbítrio, mas sim em servo-arbítrio, como eu dei a entender nesse texto:

" por sua situação, pela qual, aliás, ele geralmente não é responsável, cabendo-lhe tão somente aceitá-la e afirmar a sua vida dentro das possibilidades que lhe foram fornecidas pelo próprio sistema (isso é, uma facticidade)"